
A promessa é ousada e veio com data: a Orizon, uma das maiores operadoras de aterros e tratamento de resíduos do país, disse que quer colocar uma nova usina de biometano em operação a cada três meses nos próximos anos. Traduzindo para quem vive de resíduo: o lixo que ontem só custava para enterrar virou matéria-prima de gás vendável, e a corrida agora é por escala. Quanto mais aterro vira ecoparque, mais volume aparece para captar, separar e movimentar.
O anúncio foi feito em maio, mas ganhou peso porque a empresa já mostrou serviço. Em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, a Orizon ergueu uma planta de biometano de R$ 258 milhões com capacidade para produzir cerca de 108 mil metros cúbicos de gás por dia. A unidade fica dentro do próprio ecoparque e aproveita os resíduos orgânicos que iriam para o aterro ali do lado. Não é piloto de laboratório. É fábrica ligada, produzindo.
O que a Orizon prometeu, em números
O plano tem três engrenagens. A primeira é a cadência: uma nova planta entrando em operação a cada três meses ao longo dos próximos dois anos. A segunda é geográfica, com pelo menos três fábricas mapeadas para o Nordeste. A terceira é a compra da Vital Engenharia Ambiental, cujo fechamento a empresa projeta concluir em junho. Com a Vital dentro de casa, o volume de resíduo tratado pela Orizon salta para cerca de 14,2 milhões de toneladas por ano.
Esse número é o coração de tudo. Biometano não sai do nada: ele sai de tonelada de resíduo orgânico decompondo em aterro e gerando biogás, que depois é purificado até virar gás equivalente ao natural. Mais toneladas na entrada, mais gás na saída. Por isso a Orizon está comprando volume antes de anunciar planta: sem lixo, não há usina que se sustente.
Por que isso muda o seu jogo
Se o seu negócio orbita resíduo, coleta, transporte, triagem, locação de equipamento pesado ou serviço para aterro, essa virada mexe com a sua demanda. Um aterro que só recebia e compactava lixo agora é um ativo industrial que precisa de logística fina. Resíduo orgânico tem que chegar separado, no volume certo, no ritmo certo. Isso é mais movimentação interna, mais operação de pátio, mais frente de trabalho onde antes havia só uma célula sendo coberta com terra.
E ecoparque não roda com máquina cansada. Captação de biogás, terraplenagem das células, manejo de grandes volumes de material, tudo isso pesa sobre a frota. É aí que o dono de operação sente no bolso a diferença entre um equipamento parado e um equipamento disponível. Escavadeiras, pás-carregadeiras e tratores de esteira são o músculo desse serviço, e as líderes do setor, como Caterpillar, John Deere e Hyundai, viraram referência de disponibilidade justamente porque em aterro cada hora de máquina parada é gás que não foi captado e caminhão que não foi carregado.
O ponto não é qual marca você usa. É que a conta mudou. Quando o aterro passa a alimentar uma usina que produz gás para vender, a máquina deixa de ser custo de operação e vira parte da linha de receita. Frota subdimensionada, nesse cenário, não atrasa só a obra: atrasa o faturamento.
O número que sustenta a promessa
Prometer planta a cada três meses é fácil. Bancar é outra história. E aqui a Orizon mostrou fôlego de caixa. No primeiro trimestre de 2026, a companhia reportou receita operacional de R$ 331,1 milhões, alta de 37,5% na comparação anual, e EBITDA de R$ 143,38 milhões, um avanço de 30,5%. O lucro líquido do período ficou em R$ 22,62 milhões.
Parte dessa receita já vem de gás e crédito, não só de tarifa de aterro. Só em créditos de carbono, a empresa faturou R$ 11,5 milhões no trimestre, referentes a 388.134 toneladas de CO₂ equivalente. E há uma âncora contratada: o leilão de reserva de capacidade deve adicionar cerca de R$ 80 milhões de receita fixa por ano. É esse tipo de contrato de longo prazo que dá lastro para uma empresa apostar em construir uma planta atrás da outra.
Nem tudo veio redondo. A captação de biogás no trimestre foi de 52.521 normais metros cúbicos por hora, uma queda de 13,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ou seja: a matéria-prima oscila, e a promessa de cadência industrial vai depender de manter o volume de resíduo subindo de forma consistente. É exatamente o que a compra da Vital pretende resolver.
O que observar de perto
Para quem toma decisão nesse mercado, o recado é direto: o resíduo deixou de ser problema ambiental para virar cadeia de valor com receita recorrente. Isso puxa investimento, puxa aquisição, puxa demanda por quem opera no chão do aterro. A Orizon está transformando volume de lixo em ativo de energia, e cada tonelada a mais que ela captura é um sinal de que o setor está entrando numa fase de consolidação e escala.
O teste de verdade não é a planta de Jaboatão, que já está de pé. É a segunda, a terceira e a quarta, no prazo prometido. Se a Orizon entregar uma usina de biometano a cada três meses como disse, o Nordeste vai virar o laboratório a céu aberto de como transformar aterro em gás. E o dono de negócio que enxergar isso primeiro é o que vai chegar na fila do serviço antes da concorrência.
