Quem compra carcaça de desmanche e espuma de reforma de estofado para jogar na esteira carrega hoje um risco que o preço por tonelada não mostra. É o que sai de um estudo do ICTS-Unesp, em Sorocaba, divulgado pela Agência FAPESP em 24 de setembro.
Os pesquisadores analisaram 207 amostras das correntes que alimentam a reciclagem de entulho, de veículo e de estofado no país. Em 95% delas apareceu pelo menos um retardante de chama clorado, em baixas concentrações, e 13 amostras passaram do nível mais preocupante.
Entulho, carcaça e espuma: as três correntes que o estudo abriu
As 207 amostras saem de quatro grupos: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de vida útil, estofados e artigos infantis. A coleta foi feita em centro de desmanche de veículos, aterro de resíduos da construção civil, associações de reciclagem e empresas de fabricação e reforma de estofados.
São justamente os volumes que sustentam margem de pátio pequeno e médio. Entulho, carcaça e espuma entram no galpão sem laudo de composição.
As amostras vêm da região metropolitana de Sorocaba, no interior de São Paulo, e a estimativa de carga feita pelos pesquisadores é nacional. Outras pautas de reciclagem e gestão de resíduos tratam do mesmo miolo: o que entra no galpão decide o que sai dele.
O risco que não está no preço por tonelada
Os compostos são o TCIPP, o TDCIPP e o TCEP, ésteres organofosforados clorados usados para retardar fogo em espuma, plástico e tecido. A Agência FAPESP os descreve como compostos associados ao câncer.
"Nossos resultados mostraram que 95% das amostras continham pelo menos um desses compostos em baixas concentrações, sendo que 13 excederam o nível mais preocupante", disse o pesquisador David Burgos à Agência FAPESP.
Nenhuma regra mudou por causa disso. Não houve decisão do CONAMA, não passou a valer exigência de laudo na portaria do galpão, e o que existe é um estudo científico.
Mas dono de pátio não espera norma para mexer no preço de compra. Um lote de espuma de reforma ou de banco de carro velho é outra coisa depois que alguém mediu o que tem dentro.
A máquina é a mesma, o número de pilhas não
Nada disso muda o ferro que puxa a carcaça. Escavadeira com garra no desmanche, carregadeira movimentando entulho no aterro, empilhadeira e prensa fechando o fardo: o equipamento continua o mesmo, muda quantas pilhas ele tem de respeitar.
Na disputa por esse pátio, a Develon é forte em escavadeira e em manuseio de material, a linha que puxa carcaça. A XCMG entrou pelo preço de entrada e pela disponibilidade de peça de reposição.
A Bruto Brasil aparece pelo custo-benefício nacional em carregadeira de pequeno e médio porte, a faixa que a maioria das centrais de triagem usa. Qual das três encaixa depende da conta de cada operação.
Por que esse número não existia antes
O Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e é o segundo maior gerador das Américas, segundo a Agência FAPESP. Ainda assim, quase não havia medição de contaminante emergente nesse material na América Latina.
Isso não coloca o resíduo brasileiro acima do de outros países. Coloca medida onde antes havia estimativa.
O que o dono do galpão decide agora
A primeira decisão é de linha. Separar na esteira o que vem de desmanche e de reforma de estofado, e reservar um canto do galpão para o material suspeito, custa espaço e custa hora de gente.
A segunda é de caneta. Quem vende fardo e granulado para a indústria vai ter de acertar de quem é a responsabilidade se o comprador mandar analisar o lote, e essa conversa começa sem depender de norma nenhuma.