A conta chegou na madrugada de sexta-feira, 24 de julho. Entrou em vigor a sobretaxa americana de 12,5%, que se somou aos 25% cobrados desde a quarta-feira (22). Para uma fatia do que o Brasil embarca, a tarifa sobre madeira serrada e derivados passou a ser de 37,5%.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 16,5% de tudo que o país vende aos Estados Unidos caiu nessa alíquota cheia. São US$ 6,6 bilhões em mercadoria. Na lista de quem levou o pacote completo estão máquinas e equipamentos, gorduras e óleos, calçados, móveis e vários tipos de madeira.
Repare no "vários". O ministério não fala em toda a madeira: fala em linhas específicas de NCM. Nem toda tora, tábua ou chapa entrou na mesma vala.
As duas medidas nasceram de investigações abertas pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação comercial americana, publicadas em 15 e 23 de julho.
A lista de 471 produtos não isenta de tudo
No dia 23, o escritório de comércio dos Estados Unidos divulgou uma lista de 471 produtos brasileiros isentos da sobretaxa nova de 12,5%. Madeira e produtos de madeira aparecem entre os poupados, informou a Agência Brasil.
Só que a isenção vale apenas para os 12,5%. O produto que entrou na lista pode seguir pagando os 25% que já valiam desde 22 de julho. Não é passe livre, é meia entrada.
Na prática, o setor ficou dos dois lados da linha: um código paga 25%, o vizinho paga 37,5%. Pra quem toca serraria, isso deixa de ser notícia de jornal e vira planilha de NCM, item por item.
A celulose escapou, e isso pesa na conta do setor
Grande parte da celulose ficou fora das novas sobretaxas, ao lado de café, carnes, aeronaves e suco de laranja. Não é detalhe: celulose é o carro-chefe das exportações do setor de árvores plantadas.
Antes de qualquer tarifa, o setor já vinha de um trimestre fraco. A Indústria Brasileira de Árvores registrou US$ 3,6 bilhões exportados entre janeiro e março de 2026. Só a celulose respondeu por US$ 2,6 bilhões, e essa exportação de celulose caiu 6,3% na comparação com o mesmo período de 2025.
No mesmo trimestre, a venda interna de painéis de madeira subiu 7,4%, para 2,1 milhões de metros cúbicos, enquanto o embarque para fora caiu 27,9%. São números de janeiro a março, três meses antes das medidas americanas. Retrato do que já estava acontecendo, não efeito da tarifa.
A China segue como maior compradora, com US$ 1,3 bilhão no trimestre, à frente de Europa e América do Norte. Isso dá fôlego pra celulose. Não resolve a vida de quem vende madeira serrada e compensado.
A pressão que a madeireira vai sentir
Nenhum número oficial ainda mede o efeito de uma tarifa que começou a valer há cinco dias. O que existe é a pressão anunciada, e ela é conhecida por quem vive de tora.
Quando um destino encarece, o volume não evapora. Ou o comprador americano paga mais caro, ou a carga procura outro destino, ou sobra dentro do Brasil disputando espaço com quem já estava aqui. Nos três casos, quem exportava refaz o preço.
E se sobrar volume no mercado interno, o pátio enche. Pátio cheio cobra uma coisa só: giro. Tora parada é dinheiro parado, e madeira empilhada tempo demais racha, mancha e vira refugo antes de virar tábua.
O gargalo raramente está na serra
Em serraria de porte médio, o engasgo costuma estar antes da linha de corte: descarregar a carreta, abastecer a mesa, tirar casca e cavaco do caminho, carregar o caminhão que sai. Isso é serviço de carregadeira, não de serra.
No corte dentro do talhão, marcas como John Deere e Komatsu aparecem em harvester e forwarder. No pátio, onde o trabalho é carga e movimentação, quem disputa o cliente são os fabricantes de carregadeira, entre nacionais como a Bruto Brasil e as importadas de linha amarela.
O que olhar nas próximas semanas
A exportação brasileira para os Estados Unidos somou US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% na comparação anual. A fatia americana no total exportado pelo Brasil caiu de 12,1% para 9,4%.
Na conta do ministério, 52,7% do que o Brasil manda aos americanos seguiu sem novas sobretaxas setoriais, 4,7% pegaram só os 12,5% e 1,9% só os 25%.
Para a madeireira, a planilha muda em dois pontos agora: em qual lista o seu código de produto caiu e se o comprador americano vai absorver a diferença. O resto é destino da carga que não couber no preço.
Quem já vendia mais dentro do Brasil sente menos o baque. Quem dependia do embarque vai ter que refazer a conta na caneta.
Fontes — remover antes de publicar:
MDIC / Alcance das medidas tarifárias dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras (24/07/2026)
Agência Brasil / Tarifa de 37,5% dos EUA atinge US$ 6,6 bi em exportações do Brasil (24/07/2026)
Agência Brasil / Estados Unidos isentam 471 produtos de nova tarifa de 12,5% (23/07/2026)
IBÁ / Setor brasileiro de árvores cultivadas exporta US$ 3,6 bilhões no 1º trimestre de 2026