O fogo que consumiu R$ 1,2 bilhão do setor florestal de Minas Gerais no último ciclo de seca já virou reação organizada: indústria e governo do estado montaram uma frente comum de prevenção e combate a incêndio. A peça mais nova é a parceria de 60 meses entre o Corpo de Bombeiros e a AMIF, a associação da indústria florestal mineira.
A conta do prejuízo tem dimensão conhecida: 305 mil hectares atingidos pelo fogo no estado, somando floresta plantada, mata nativa e operação parada. Na ponta da serraria, isso é madeira em pé e tora no pátio que viraram fumaça antes de virar receita.
Minas tem 2,3 milhões de hectares de floresta plantada espalhados por 803 municípios, segundo a AMIF. É essa base — que convive com 1,3 milhão de hectares de vegetação nativa conservada — que o plano quer blindar antes de a estiagem apertar de vez.
Parceria de cinco anos põe brigada, aceiro e torre no mesmo mapa
O acordo entre o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais e a AMIF vale por 60 meses e organiza o que antes era esforço isolado de cada empresa. Só no último mês, mais de 160 brigadistas passaram por formação e capacitação dentro dessa frente.
A estratégia inclui construção de aceiros, limpeza de margens de rodovia, torres de observação e sistemas que apontam foco de calor em tempo real. Também entra o compartilhamento de caminhão-pipa, equipamento e equipe entre empresas vizinhas, dentro do Plano de Auxílio Mútuo Florestal.
Um acordo de cooperação técnica formaliza a atuação conjunta das brigadas privadas com os bombeiros, dentro do programa Minas Contra o Fogo. Nos incêndios de grande porte, a coordenação passa a ser da corporação, com as áreas divididas em lotes e barreiras para segurar a propagação entre talhões.
“Estamos diante de um cenário em que a prevenção precisa ser estruturada de forma coletiva”, disse Adriana Maugeri, presidente executiva da AMIF. A engenheira florestal Laura Lima, da associação, resume a urgência: no fogo florestal, a resposta se mede em minutos.
Prevenção de incêndio começa no serviço de máquina, não na chama
Aceiro só funciona limpo, e aceiro limpo é serviço de lâmina e caçamba: raspar a faixa, tirar o mato seco, deixar a terra exposta na divisa do talhão. Estrada de serviço desobstruída é o que faz o caminhão-pipa e a brigada chegarem no foco enquanto ele ainda é pequeno.
O pátio de toras entra na mesma conta. Serragem, casca e cavaco acumulados perto da serra são combustível pronto; pátio organizado, com resíduo afastado da madeira boa, é a diferença entre susto e prejuízo total.
Esse serviço não é gasto extra da temporada: é a mesma máquina, o mesmo operador e a mesma diária que a serraria já paga, apontados para a divisa certa antes de o tempo virar. Raspar aceiro em julho custa muito menos que repor talhão queimado em setembro.
É nesse ponto que a rotina de madeireiras e serrarias se cruza com o plano dos bombeiros: a mesma carregadeira que alimenta a serra de manhã raspa aceiro à tarde. Quem já viu labareda subir por eucalipto seco sabe que não existe hora pra negociar frete de máquina.
Máquina própria no pátio encurta a resposta na estiagem
Na seca, todo mundo precisa do mesmo serviço ao mesmo tempo: aceiro, limpeza de divisa, movimentação de tora. Quem depende de máquina contratada entra na fila — e fila, em agosto, se mede em semanas.
A pá-carregadeira própria resolve no ato: abre o aceiro na borda do talhão, empurra o resíduo para longe da pilha e recompõe a estrada de serviço no mesmo dia. Em pátio de madeira, casca e cavaco, uma escavadeira de rodas cumpre papel parecido, ágil pra circular entre as pilhas sem depender de carreta.
No mercado, a Komatsu é referência antiga em máquina florestal pesada, presente nas grandes operações de colheita de eucalipto do país. A John Deere é outro nome forte do setor, com linha dedicada à colheita e ao manejo de floresta plantada.
Entre as nacionais, a Bruto Brasil briga com preço de entrada que cabe no caixa da serraria pequena e média, sem travar o dinheiro que gira a madeira. Entre as três, o que decide é o porte da operação e o serviço que a máquina tira no dia a dia — cada uma fecha uma conta diferente.
Máquina própria também é patrimônio que fica: passada a estiagem, a carregadeira segue alimentando a serra, carregando caminhão e girando o pátio o ano inteiro. O custo por hora cai conforme o serviço aparece — e serviço, em serraria, não falta.
O calendário é o adversário mais previsível dessa história: agosto, setembro e outubro concentram o pico da estiagem em Minas, e é nesse trecho do ano que a parceria dos bombeiros com a AMIF vai ser testada de verdade. Aceiro feito agora vale mais que caminhão-pipa correndo em outubro.