Sugestões? Clique aqui
Assine
Sobremáquinas

Com tarifaço nos EUA, madeira brasileira vira o mapa e mira Malásia e Indonésia

Madeireiras e SerrariasPublicado em 03 de ago. de 2026CompartilharTweetarPinterestWhatsApp
Com tarifaço nos EUA, madeira brasileira vira o mapa e mira Malásia e Indonésia

O mercado da madeira brasileiro começou a redesenhar o mapa: com a tarifa acumulada de 37,5% em vigor nos Estados Unidos, os embarques do setor procuram porto novo na Ásia, e Malásia e Indonésia aparecem na frente da fila. Os dez principais produtos de madeira exportados pelo país somaram US$ 855,2 milhões no primeiro semestre de 2026, segundo a WoodFlow, ante US$ 929,5 milhões no mesmo período de 2025.

A queda é de 8% em valor e de 6% em volume, de 3,6 milhões para 3,4 milhões de metros cúbicos. Só em junho, os embarques renderam US$ 154,4 milhões. E os Estados Unidos, mesmo taxando, ainda responderam por 24,7% da receita do semestre.

No pátio de toras, o serviço continua o mesmo: tora entrando, fita rodando, fardo cintado esperando contêiner. O que muda é o papel que acompanha a carga. O destino que por décadas se escreveu em inglês começa, aos poucos, a apontar pro Sudeste Asiático.

Os números são da WoodFlow, plataforma que acompanha os embarques do setor com base no ComexStat. Os levantamentos de julho apontam três motores para a queda: a tarifa americana, o dólar instável e o custo logístico. Mas o desenho novo das rotas é o que mais interessa a quem tem tora no pátio.

Tarifa de 37,5% encareceu a porta que pagava um quarto da conta

Desde 22 de julho vale a sobretaxa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos industriais brasileiros, resultado de investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial americana. Para vários tipos de madeira, as medidas se somam e a taxa acumulada chega a 37,5%.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a tarifa cheia alcança US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras. A madeira está na lista dos itens atingidos, ao lado de máquinas, calçados e móveis, e boa parte dela ficou de fora da lista oficial de exceções.

Pra quem serra pinus, a conta é direta. Um mercado que pagava quase um quarto da receita do setor ficou até 37,5% mais caro da noite pro dia. Segurar o fardo no pátio esperando a tarifa cair virou aposta arriscada, e a saída tem sido procurar comprador novo.

Malásia e Indonésia entram no mapa, e a Apex põe R$ 130 milhões na mesa

A rota asiática não nasceu com o tarifaço. Levantamento da WoodFlow já registrava, desde o fim de 2024, a migração dos principais compradores da madeira serrada brasileira: as Américas perdendo espaço e destinos como Malásia e Indonésia ganhando. O pinus, que responde por cerca de 80% das exportações brasileiras de madeira sólida, puxa esse movimento.

Pelo mesmo levantamento, exportadores brasileiros já vinham abrindo espaço em Indonésia, Malásia, Vietnã e Taiwan antes mesmo da sobretaxa. O tarifaço só apertou o passo de um caminho que já estava sendo trilhado.

"Os produtores de madeira brasileiros têm feito sua tarefa de casa. Investindo em diversificação de produtos e de mercados", afirmou Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, ao comentar os números do semestre em julho.

O governo decidiu empurrar na mesma direção. A ApexBrasil prepara um plano de R$ 130 milhões, com lançamento previsto para agosto, para ajudar 2,4 mil empresas exportadoras de 57 setores a abrir mercado fora dos Estados Unidos.

As prioridades declaradas: a União Europeia, por causa do acordo com o Mercosul, e os países da Asean, o bloco do Sudeste Asiático que reúne Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã. Cazaquistão e Uzbequistão, na Ásia Central, também entram na lista.

E o movimento começou antes do dinheiro novo. Entre junho de 2025 e maio de 2026, 72% das 2,4 mil empresas apoiadas pela agência que vendiam pros Estados Unidos adicionaram pelo menos um destino às exportações. Para Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, o plano é "um novo olhar sobre novas oportunidades a partir de um novo cenário do comércio internacional".

O que muda na operação de quem serra

Vender pra Ásia mexe na rotina inteira da serraria. A viagem de navio é bem mais longa que a rota americana, o que significa dinheiro mais tempo dentro do contêiner e programação de pátio recalculada. Comprador novo também quer amostra, quer visita, quer histórico. Ninguém fecha contrato grande no primeiro contato.

A margem segue apertada nas duas pontas. Os levantamentos de julho listam dólar instável e frete caro entre os fatores que comem o resultado do exportador, e isso não muda por causa do destino novo. Muda a planilha de custo de cada rota, e quem embarca precisa refazer essa conta antes de assinar.

Tem ainda a régua ambiental. A União Europeia, destino forte do compensado de pinus brasileiro, passa a cobrar a partir de 30 de dezembro de 2026 o regulamento antidesmatamento EUDR, que exige rastreio da origem da madeira, segundo a FIESC. Quem quiser manter a rota europeia aberta enquanto testa a asiática vai precisar da papelada de origem em ordem.

O calendário dos próximos meses dá o tom. Em agosto, a Apex apresenta o plano de diversificação; em dezembro, a régua europeia aperta. Entre uma data e outra, o dono de serraria decide com o que dá pra contar. Os números do semestre mostram que esperar o mercado americano voltar ao preço antigo, por enquanto, não é plano.

Veja também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu comentário