A folha do canteiro subiu 8,9% em 12 meses e o fim da escala 6x1 andou no Senado: após reunião com Lula, Davi Alcolumbre despachou a PEC 221/2019 pra CCJ no dia 14. Pela conta de Abrainc e CBIC, a mudança pode encarecer o imóvel novo em até 11%.
Pra quem toca obra, a pergunta deixou de ser se a folha vai pesar mais, e sim quanto. E a variável que segue na mão do empresário é a produtividade: a mesma etapa com menos gente e mais máquina.
O que a PEC muda na jornada
A PEC 221/2019 acaba com a escala de seis dias de trabalho por um de folga e reduz a jornada semanal de 44 pra 40 horas, sem corte de salário. O texto passou na Câmara e estava parado no Senado desde maio.
A trava saiu em 14 de agosto: após se reunir com Lula, o presidente da Casa despachou a proposta pra Comissão de Constituição e Justiça, a CCJ, segundo a CBIC e o Metrópoles. Relator ainda não há; a escolha cabe ao presidente da comissão, Otto Alencar.
A conta que Abrainc e CBIC colocaram na mesa
O estudo das duas entidades projeta alta de 5% a 11% no custo total dos empreendimentos, a depender do modelo adotado pra repor as horas perdidas. Nas unidades populares, o impacto pode chegar a 10% do custo consolidado.
A CBIC desenhou três saídas: contratar mais gente, pagar hora extra ou desacelerar a obra. Pra manter o ritmo atual, seriam necessários cerca de 288 mil trabalhadores a mais, num custo adicional estimado em R$ 13,5 bilhões por ano.
Se a reposição vier por hora extra, a conta engorda: até R$ 20,3 bilhões anuais, considerando encargos e o adicional de 50%, aponta estudo divulgado pela entidade em março. E desacelerar significa entregar menos unidade e esticar prazo.
Mas existe um gargalo anterior ao dinheiro. O vice-presidente da CBIC, Eduardo Aroeira, afirma que a escassez de profissionais limita a contratação em massa, mesmo que a construtora queira e possa pagar.
Contrato antigo, custo novo: onde a margem aperta
A preocupação mais aguda do setor é com o que já foi vendido. O país tem entre 800 mil e 1 milhão de unidades em produção, boa parte com preço fechado no segmento popular, segundo o levantamento da Abrainc e da CBIC.
Nesses contratos, o repasse é limitado: custo novo em preço velho sai da margem da construtora. E a Abrainc calcula que, além de mais caras, as obras tendem a ficar mais longas.
A alavanca que sobra: produtividade por máquina
Se a hora trabalhada vai custar mais e falta braço no mercado, a variável que o empresário ainda controla é quantas horas-homem cada etapa da obra consome. Carga e movimentação de material são o alvo mais óbvio: serviço repetitivo, pesado, que come equipe o dia inteiro.
Uma carregadeira compacta no canteiro resolve em minutos o que uma turma leva a manhã pra fazer na boca da caçamba, e libera o oficial pra atividade que exige gente. Marcas como Volvo CE e Komatsu são referência de mercado nesse tipo de equipamento, e a Bruto Brasil aparece na mesma conversa como opção de custo-benefício nacional.
Obra que depende de menos horas-homem por etapa sofre menos quando a folha sobe, seja por convenção coletiva, seja por emenda na Constituição.
Mão de obra já sobe mais que material
O componente de mão de obra do INCC, o índice da construção calculado pela FGV, acumula alta de 8,9% em 12 meses no recorte usado pelo estudo do setor, acima da variação dos materiais e bem acima da inflação oficial.
Desde 2022 o custo do trabalhador da construção cresce mais que o índice geral de preços. É reflexo de um mercado apertado: força de trabalho envelhecendo, reposição difícil, encarregado e operador disputados canteiro a canteiro.
E a disputa não vem só do vizinho privado. Obra pública nova entra no mesmo funil: a obra de drenagem de R$ 5,1 milhões na BR-101, em Barra Velha, prestes a ir a licitação, vai buscar operador, encarregado e máquina no mesmo mercado em que a construtora já não acha gente.
"Onda inflacionária", diz o setor; defensores veem ganho social
Em Minas Gerais, o Sicepot-MG, que representa a indústria pesada da construção, fala em risco de "onda inflacionária de preços" se a PEC passar como está.
"A gente vai ter que repor com mais mão de obra para manter a produtividade ou reduzir a produtividade. Ambos vão gerar aumento de custo", disse o presidente da entidade, Bruno Ligório, ao Diário do Comércio.
Do outro lado, os defensores da mudança, como a deputada Erika Hilton, que encampou a bandeira do fim da 6x1, sustentam que a jornada menor melhora a qualidade de vida do trabalhador e pode abrir novas vagas.
O que acompanhar no Senado, e quando
A votação não tem data cravada. O líder do governo no Senado, Randolfe Rodrigues, trata a proposta como "prioridade absoluta" e admite votar ainda neste período; senadores contrários, como Rogerio Marinho, preferem empurrar o tema pra depois das eleições.
Marinho apresentou uma alternativa, a PEC 12/2026, que troca a redução linear da jornada por negociação flexível entre empresa e trabalhador. O texto final pode sair de uma costura entre as duas propostas.
A remessa à CCJ já aconteceu; falta o relator e a entrada na pauta da comissão. O marco imediato do calendário é o esforço concentrado que começa em 31 de agosto, quando o plenário volta ao ritmo cheio, segundo a agência do Senado.
É dessa combinação, comissão primeiro, plenário depois, que sai a data da votação. E, com ela, o preço da hora trabalhada em toda obra que a construtora assinar daqui pra frente.