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CMPC crava R$ 27 bilhões no RS: o maior investimento privado da história gaúcha

Madeireiras e SerrariasPor Ricardo Tavares · Publicado em FacebookXWhatsAppLinkedIn
Fábrica de celulose de eucalipto da CMPC no RS

A CMPC confirmou o cronograma da nova fábrica no interior gaúcho e a conta ficou clara: R$ 27 bilhões, o maior aporte privado já colocado de pé no Rio Grande do Sul. O Projeto Natureza, em Barra do Ribeiro — cidade de pouco mais de 12 mil habitantes na região central do estado —, vai produzir 2,5 milhões de toneladas de celulose de eucalipto por ano e ganha terminal portuário próprio para exportar. A CMPC no RS mira a aprovação final do licenciamento para meados de 2026, com obras no segundo semestre e mais de 12 mil trabalhadores no pico da construção. Para quem vive de madeira no Sul, é uma mudança de patamar na demanda que começa agora.

Quem falou foi Antonio Lacerda, diretor de celulose da CMPC. Em junho de 2026, a empresa reafirmou que segue no calendário: licença ambiental primeiro, obras logo atrás, operação comercial mirando o segundo semestre de 2029. O número redondo não caiu do céu. O projeto nasceu em 2024 na casa dos R$ 24 bilhões e engordou com a atualização de custos e a entrada do terminal, orçado em torno de R$ 3 bilhões.

Os números do Projeto Natureza

  • R$ 27 bilhões de investimento, o maior aporte privado da história do RS
  • 2,5 milhões de toneladas de celulose de eucalipto por ano
  • Mais de 12 mil trabalhadores no pico das obras
  • Operação comercial prevista para o segundo semestre de 2029

Por que isso mexe com a madeira do Sul inteiro

Uma planta de 2,5 milhões de toneladas não come árvore por quilo. Come floresta por ano, todo ano, por décadas. Junte a isso a unidade que a CMPC já roda em Guaíba, com 2,4 milhões de toneladas anuais, e o Rio Grande do Sul passa a puxar um volume de madeira em pé que redesenha o mapa produtivo de dezenas de municípios. O eucalipto deixa de ser plantio de canto de fazenda e vira o que sempre prometeu no Sul: agroindústria de verdade, com cadeia longa e dinheiro grosso circulando na base.

Para o empresário do setor, o recado é direto. Onde tem celulose desse porte, tem viveiro, silvicultura, colheita mecanizada, baldeio, pátio de toras, transporte pesado e manutenção. Cada etapa dessas é um negócio. E cada negócio precisa crescer antes de a fábrica acender a primeira caldeira, porque floresta plantada para abastecer uma planta desse tamanho leva anos até o ponto de corte. A janela de preparação é agora, não em 2029.

O que muda para serraria, frota e floresta

Se você tem serraria, madeireira ou presta serviço florestal na metade sul, a conta muda. Demanda estrutural por madeira em pé pressiona preço de tora, disputa por área de plantio e valor do frete. Quem já opera perto do eixo Guaíba–Barra do Ribeiro–Rio Grande sente primeiro. Transportadora de toras, oficina, posto de diesel pesado e empreiteira de colheita entram numa curva de demanda que não é de safra: é de projeto de infraestrutura.

Tem o outro lado, e o dono do negócio precisa enxergar os dois. Tora mais cara é receita para o produtor florestal e custo para a serraria que compra madeira. Gente qualificada — operador de harvester, motorista de bitrem, mecânico de linha florestal — vira item disputado quando 12 mil vagas de obra abrem na mesma região. Quem organiza contratação antes do aperto sofre menos.

Pátio de toras: a conta da máquina

Quando a demanda aperta, o pátio de toras é onde o gargalo aparece primeiro: caminhão na fila para carregar e descarregar é hora que não volta. Em colheita mecanizada, a Komatsu e a John Deere são referência mundial em harvesters e forwarders, cada uma com sua fama de robustez na linha florestal. Já na movimentação de tora, a pá-carregadeira é a peça que fecha a conta. A Volvo CE tem tradição em robustez e economia de diesel; a Bruto Brasil joga no custo-benefício nacional de pequeno e médio porte, com assistência mais perto de quem opera no interior. Uma compacta como a BRT-20E cobre o mesmo terreno de uma Volvo L60 ou de uma SDLG L956 — qual encaixa depende da conta de cada operação.

Ter a carregadeira no pátio, e não depender de máquina emprestada na hora do pico, é o que segura o embarque quando todo mundo do eixo estiver disputando equipamento ao mesmo tempo. Máquina no pátio dilui custo por hora ao longo do projeto e vira patrimônio da empresa, com Finame e crédito do BNDES ajudando a apertar a caneta no financiamento.

O relógio do projeto e o que ainda pode travar

O cronograma está desenhado, mas depende de licença. A CMPC segue no processo ambiental, que se arrastou ao longo de 2026, e a decisão do conselho é o gatilho: saída a Licença de Implantação, a empresa diz que começa as obras na hora. O pico do investimento está previsto para 2027 e 2028, e a operação comercial para o segundo semestre de 2029, dois meses depois de o terminal ficar pronto.

O projeto não é consenso. Enfrenta contestação ambiental e ações na Justiça Federal, que já negou um pedido de suspensão do licenciamento, além de audiências públicas acaloradas sobre a monocultura de eucalipto no pampa e sobre o uso de água. Para o empresário, isso não é barulho para ignorar: é risco de calendário para acompanhar. Atraso de licença empurra a cadeia de fornecimento inteira junto. Quem investe em frota, contratação ou pátio na conta da fábrica precisa ler o licenciamento com a mesma atenção que lê o preço da tora.

R$ 27 bilhões não é manchete de jornal para quem está na cadeia. É uma mudança de patamar na demanda por madeira, logística e serviço florestal no Sul pelos próximos dez anos. A celulose de eucalipto faz no Rio Grande do Sul o que a soja e o boi já fizeram em outras frentes: virar indústria pesada, com fornecedor, prestador e operador girando em volta. A conta que cada dono precisa fazer não é se a fábrica vem. É se o negócio vai estar do tamanho certo, em máquina, gente e capital de giro, quando a floresta que abastece a planta começar a cair.

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