Passa de 1 milhão de toneladas por ano o material reciclável que a cidade de São Paulo enterra em aterro. Papelão, plástico, metal, vidro: carga com preço de mercado descendo pra vala junto com o rejeito. Pra quem tem galpão, esteira e carregadeira movimentando material, o dado tem outra leitura. É mercado aberto, e de um tamanho que nenhum contrato novo oferece.
A conta sai de um estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP, publicado neste mês de julho no periódico científico Waste. Quinze anos depois da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a coleta seletiva na capital paulista chegou a 2,85% de tudo o que a cidade recolhe. O recorte é o município de São Paulo, não o estado.
E a régua está mudando agora: na quinta-feira (30), a CPI dos Lixões da Alesp aprovou o relatório final que propõe regra nova pra quem transporta e destina resíduo no estado. Estudo mostrando o tamanho do mercado e lei nova se desenhando, tudo na mesma semana.
O trabalho é assinado pelas pesquisadoras Adriana Fonseca Braga, Wanda Maria Risso Gunther e Helena Ribeiro. Em 2006, a coleta seletiva era 0,69%. Dezoito anos depois, 2,85%. Andou, mas devagar. E é nessa lentidão que mora a sobra de material.
O que não vira dinheiro vira aterro
O estudo mostra que 32,08% da massa de resíduos da cidade é material reciclável. A coleta seletiva captura 2,85%. Faça a conta: num total recolhido que passa de 3,5 milhões de toneladas por ano, mais de 1 milhão de toneladas de reciclável acaba enterrada.
Em 2024, a coleta seletiva somou 100.142 toneladas, cerca de 274 toneladas por dia. É pouco perto do que a cidade gera. Todo dia útil, caçamba atrás de caçamba chega na balança do aterro carregando papelão que renderia fardo prensado e PET que viraria matéria-prima.
A imagem que resume o problema: a esteira parando antes do fim do turno por falta de material na porta, enquanto a poucos quilômetros o aterro recebe caminhão cheio de material bom. São Paulo nunca teve falta de reciclável. Tem falta de captura.
O raio-x do lixo paulistano
2,85% — taxa de coleta seletiva na cidade de São Paulo em 2024; em 2006 era 0,69%. A meta traçada na época da lei era 10%.
100.142 toneladas coletadas seletivamente em 2024, cerca de 274 toneladas por dia.
32,08% da massa de resíduos da cidade é material reciclável; os orgânicos são 46,9%.
28,2 mil toneladas chegaram às 29 cooperativas credenciadas em 2024 — as quatro maiores concentram 43% do volume.
Onde o material está escapando
O estudo escancara a desigualdade entre regiões. A Vila Mariana atingiu 12,37% de coleta seletiva em 2024; a Sé, 9,9%; Pinheiros, 6,59%. Enquanto isso, várias subprefeituras da periferia ficam abaixo de 1%.
Traduzindo pro negócio: nas regiões onde mora a maior parte da população, quase nada é separado. O reciclável dessas áreas sobe no caminhão comum e dali vai direto pro aterro. Quem montar recepção e triagem perto dessas regiões disputa um material que hoje não tem concorrente na ponta.
E o pouco que se coleta ainda esbarra em gargalo de processamento. As 29 cooperativas credenciadas pela prefeitura receberam 28,2 mil toneladas em 2024, e as quatro maiores concentram 43% desse volume. Nem o que chega encontra estrutura de sobra.
Infraestrutura parada desde 2017
Outro achado do estudo pega no osso: a infraestrutura de tratamento de recicláveis praticamente não mudou desde 2017. Sem nova triagem mecanizada, sem novos transbordos.
Pra quem opera no setor privado, isso diz duas coisas. Primeira: o poder público não vai dar conta sozinho, e a demanda por capacidade de triagem, prensagem e enfardamento segue represada. Segunda: o material continua nascendo todo dia. O que falta é quem processe.
Tem ainda o orgânico, que é 46,9% do lixo domiciliar e não conta com sistema próprio de coleta, segundo o estudo. Compostagem em escala segue como página quase em branco na maior cidade do país.
CPI aprovou relatório: regra nova vem aí
Foi nesse cenário que a CPI dos Lixões da Alesp aprovou, na quinta-feira (30), o relatório final de 88 páginas com propostas de novas regras pra transporte e destinação de resíduos no estado.
Entre elas: rastreamento obrigatório dos caminhões de resíduos por telemetria, o Programa Renova SP pra recuperar áreas degradadas por descarte irregular, dois projetos de lei e um projeto de resolução.
Pra quem já roda dentro da regra, com balança aferida e destinação documentada, aperto de fiscalização costuma limpar o mercado de concorrente clandestino. Agora esses projetos entram em tramitação na Alesp — e é ali que se decide quem vai poder carregar, transportar e destinar resíduo no estado, e em que condição. Quem já opera no padrão sai na frente.