São 603.534 hectares de floresta pública estadual do Amapá abertos a manejo florestal por contrato de 31 anos. Para a serraria, o que está em jogo é oferta de tora nativa com origem legal entrando no mercado ao longo de três décadas.
O Governo do Amapá publicou o edital de concessão em 16/10/2026. O projeto foi estruturado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, a Sema, em parceria com o BNDES.
São 10 Unidades de Manejo Florestal, as UMFs, da Floresta Estadual do Amapá, a Flota/AP, em seis municípios: Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Ferreira Gomes, Tartarugalzinho, Pracuúba e Oiapoque.
Nada foi concedido ainda — o que saiu foi o edital.
Os números do edital
603.534 hectares em 10 UMFs, média de 60.353 hectares por unidade.
31 anos de contrato, com objeto que vai de madeira a créditos de carbono.
R$ 643 milhões em investimentos privados, R$ 608 milhões em royalties florestais e R$ 173 milhões em compromissos socioambientais, somados em 31 anos.
1.030 empregos diretos, pela estimativa do edital.
A previsão de R$ 1,4 bilhão divulgada com o edital é a soma dessas três rubricas ao longo dos 31 anos, royalties incluídos — R$ 1,424 bilhão pela conta das parcelas. Não é R$ 1,4 bilhão em investimento.
Os R$ 608 milhões de royalties, divididos igualmente pelos 31 anos, dão R$ 19,6 milhões por ano, média linear, já que o edital não divulga curva de arrecadação.
O royalty vai para o poder concedente; a receita da empresa vem da tora vendida.
Concessão florestal não transfere a terra.
A floresta segue pública, e o contrato dá à empresa vencedora o direito de manejar a área pelo prazo fixado.
O Amapá já tem concessão florestal em operação.
São 67 mil hectares desde 2016, operados pela TW Forest, com arrecadação média de R$ 3 milhões por ano e 300 empregos diretos.
A área agora ofertada é nove vezes a da concessão em operação. A média anual de royalties projetada é 6,5 vezes a arrecadação de hoje.
Cada uma das 10 unidades tem 60.353 hectares em média.
É área próxima à de toda a concessão que já funciona no estado.
A concessão é estadual, da Floresta Estadual do Amapá, e não se confunde com áreas federais sob o Serviço Florestal Brasileiro.
O edital reúne no mesmo contrato produtos madeireiros, produtos não madeireiros e créditos de carbono. Madeira é só uma das três frentes.
Os 1.030 empregos diretos são estimativa do edital. Nenhuma contratação foi feita.
Nenhuma fonte consultada informa volume: quantos metros cúbicos de tora por ano devem chegar ao pátio de toras, onde a garra empilha e o caminhão-toreiro sai carregado, é o número que define a escala de cada serraria que trabalha com tora nativa.
Da consulta de 2025 ao edital: menos área, menos emprego
Na consulta pública de 22/09/2025, o projeto era outro. Eram 607.363 hectares em 11 UMFs, com estimativa de cerca de 2 mil empregos diretos.
A consulta integrou uma série de audiências públicas, encerrada em Pedra Branca do Amapari.
A estimativa de emprego caiu de cerca de 2 mil para 1.030, quase pela metade.
A área recuou 3.829 hectares, ou 0,63%, e o desenho perdeu uma unidade de manejo, de 11 para 10.
A projeção de arrecadação também encolheu. Em 2025 a Sema falava em mais de R$ 30 milhões por ano; os R$ 608 milhões de royalties do edital dão média linear de R$ 19,6 milhões por ano.
Nenhuma das fontes consultadas explica a redução, nem por que o número de UMFs caiu de 11 para 10, nem por que a estimativa de emprego caiu quase pela metade.
O que está registrado é a motivação declarada. O Diário do Amapá informou que a iniciativa busca aliar crescimento econômico à conservação ambiental.
O governador Clécio Luís disse que o estado está construindo um modelo em que a floresta pode gerar empregos, renda e oportunidades.
Mais de 5 mil famílias no Amapá dependem economicamente da atividade florestal, segundo Henrique Ulchak, presidente do SindMadeiras/AP, em entrevista ao site SelesNafes.
O calendário do certame
O edital foi publicado em 16/10/2026 e fica aberto por 35 dias úteis.
A sessão pública está marcada para 11/12/2026.