O minério de ferro do Brasil estreou um caminho novo para o mercado externo: o carregamento do navio em pleno mar aberto. Desde domingo (16), o Porto Piauí, em Luís Correia, no litoral piauiense, executa a primeira operação de transbordo offshore de minério de ferro do país e enche os porões do graneleiro Marine Victory, que vai levar a carga para a China.
Transbordo é a manobra de passar carga de uma embarcação para outra. A Companhia Porto Piauí, que administra o terminal, classifica a operação como inédita no Brasil em escala comercial permanente: o navio grande não encosta no cais, espera fundeado a cerca de 22 quilômetros da costa.
"É o início da operação de transhipment em alto-mar com o navio oceânico Marine Victory", disse Raimundo Dias, presidente da Companhia Porto Piauí. Segundo ele, o carregamento deve ser concluído nos próximos dias, quando o navio parte rumo à China.
Vaivém de quatro embarcações a 22 quilômetros da costa
A logística roda em etapas. Os graneleiros Konta II e Konta III, com cerca de 10 mil toneladas cada, fazem o vaivém entre o cais de Luís Correia e a área de fundeio.
No meio do caminho entra o Venture, navio que funciona como armazém flutuante e acumula o minério até a transferência final.
O Marine Victory, graneleiro da classe Capesize operado pela Cosco Shipping, tem capacidade para 120 mil toneladas e é o maior navio da operação. A previsão divulgada pela imprensa piauiense é que ele parta com cerca de 110 mil toneladas no porão.
No chão do terminal, a cena é a de qualquer pátio de granel: a pilha de minério cresce perto do berço e carregadeiras alimentam o embarque que abastece os porões do Konta II e do Konta III. A diferença é que o navio oceânico espera longe da vista, em mar aberto.
A primeira perna saiu no dia 5 de agosto, quando o Konta II deixou o porto por volta das 9h com 9 mil toneladas. Dois dias depois começou a transferência em alto-mar, acompanhada pela Marinha do Brasil e sem intercorrências, segundo a companhia.
Minério de Piripiri com teor de até 65% de ferro
O minério embarcado vem de Piripiri, no norte do estado, e é produzido pela Lion Mining, mineradora piauiense fundada em 2022. A empresa opera três minas na região e produz cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano.
O material tem teor de ferro de até 65%, faixa disputada pelas siderúrgicas. Em julho, a mineradora fechou contrato de longo prazo com a Companhia Porto Piauí para movimentar até 10 milhões de toneladas pelo terminal.
E o estado corre atrás de espaço nesse mapa. Segundo o governo do Piauí, a produção estadual de minério cresceu 4.000% entre 2023 e 2024, as reservas conhecidas passam de 1 bilhão de toneladas e o Piauí já aparece como sexto maior exportador mineral do país.
Calado raso levou o carregamento para o mar aberto
Calado é a profundidade que o navio precisa debaixo da linha d'água para flutuar e navegar. O terminal de Luís Correia não tem profundidade para receber no cais um graneleiro do porte do Marine Victory, e a estrutura de águas mais fundas ainda não existe.
A saída foi levar o carregamento para onde a água é funda. Com o transbordo em alto-mar, a companhia antecipou o início das exportações em até três anos, sem esperar obra de aprofundamento.
O modelo já roda em países como Equador, Singapura e Guiné-Bissau, segundo reportagem do Movimento Econômico.
Para a logística da região, muda o desenho da cadeia: a carga sai da mina em Piripiri, vira pilha no pátio de Luís Correia e ganha o mundo sem depender de terminal de águas profundas. O embarque nasce num momento em que o faturamento da indústria caiu 1% no semestre e a confiança só reagiu em agosto, o que dá ainda mais peso a uma rota nova de exportação no Nordeste.
Grãos, fertilizante e contêiner: o plano para escalar
O passo imediato é fechar os porões do Marine Victory e despachá-lo para a China. Depois, a fila anda com o contrato da Lion Mining, que prevê até 10 milhões de toneladas de minério passando pelo terminal nos próximos anos.
A companhia também anunciou embarques de grãos, com milho e sorgo previstos para o quarto trimestre em acordo com a Czarnikow Brasil, e uma operação de fertilizantes marinhos com a Oceana Minerals, com capacidade citada de mais de 1,5 mil toneladas por dia. Um terminal de carga geral e contêineres, orçado em R$ 25 milhões, tem inauguração prevista para dezembro.
O governo estadual projeta R$ 4,2 bilhões em investimentos ligados ao porto, entre grãos, fertilizantes, contêineres e pescado. Enquanto a conta não fecha, o trabalho segue na área de fundeio: a previsão da Companhia Porto Piauí é concluir o carregamento nos próximos dias e apontar a proa do Marine Victory para a China.