Dois números saíram com um dia de diferença e apontam para lados opostos. Em 2 de setembro, o IBGE informou que a produção de bens de capital, a categoria que reúne as máquinas, subiu 2,4% em julho na comparação com junho.
Na véspera, a ABIMAQ tinha mostrado o outro lado do balcão. As fábricas de máquinas e equipamentos faturaram R$ 24,4 bilhões em julho, 8,9% menos que em julho de 2025.
Uma medida acompanha o que sai da linha de montagem. A outra registra o faturamento, que só entra depois de alguém assinar o pedido.
Na prática, é o segundo número que pesa no chão de fábrica. A máquina continua saindo, só que quem compra está com o pé no freio.
Fábrica produz mais, comprador segura o pedido
A produção industrial brasileira variou 0,2% em julho ante junho, segundo o IBGE. Foi o primeiro resultado positivo depois de dois meses seguidos de queda.
Na comparação com julho de 2025, porém, a indústria recuou 0,5%. No acumulado do ano o setor tem alta de 1,1%, e em 12 meses, de 0,6%.
Treze dos 25 ramos pesquisados cresceram. O maior empurrão veio de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, com alta de 12,2%.
Nem todo mundo subiu junto. A impressão e reprodução de gravações caiu 17,2%, a metalurgia recuou 1,4% e a indústria extrativa perdeu 1,0%.
Entre as grandes categorias, os bens de consumo duráveis avançaram 3,2%. Os bens de capital, que são as máquinas usadas no chão de fábrica e nos centros de distribuição, subiram 2,4%.
O acumulado de janeiro a julho deixa o tamanho do aperto mais claro. O faturamento líquido do setor somou R$ 154,5 bilhões no período, 12,9% abaixo do mesmo intervalo de 2025.
Juro alto e máquina chinesa no mesmo pátio
A ABIMAQ dobrou a projeção de queda para o ano. A previsão de recuo nas vendas totais em 2026 passou de 3,2% para 8,4%, revisão anunciada em 1º de setembro.
No mercado interno, a conta piorou de 3,6% para 7,7% de queda. As exportações, antes projetadas com alta de 6,4% em dólares, agora aparecem com recuo de 1,1%.
O presidente executivo da entidade, José Velloso, apontou o custo do dinheiro. “Com a taxa de juros muito elevada, além de o financiamento da máquina ficar mais caro, o investimento não se justifica”, disse.
Velloso citou também a concorrência chinesa, com preços que os fabricantes brasileiros dizem não conseguir acompanhar. Nas exportações, o principal destino são os Estados Unidos, alvo de tarifas americanas.
O investimento em máquinas no país somou R$ 34,6 bilhões em julho, 5,3% menos que um ano antes. A parcela produzida no Brasil ficou em R$ 18,7 bilhões, também 5,3% abaixo.
Mesmo assim, a linha de montagem não parou. O uso da capacidade instalada ficou em 78,4% em julho, apenas 0,3 ponto abaixo do registrado um ano antes.
As vendas para fora seguraram parte da queda. As exportações do setor somaram US$ 7,6 bilhões de janeiro a julho, alta de 8,4% sobre o mesmo período de 2025.
Quem compra passou a demorar mais
Com crédito caro, trocar equipamento deixou de ser decisão automática. A venda de equipamentos no mercado brasileiro perdeu força com o comprador segurando a decisão.
Esse freio aparece também na disputa do porte grande de carregadeiras. A Caterpillar entra com rede de concessionárias e pós-venda espalhada pelo país, e a Case com décadas de linha de construção no Brasil.
Na mesma faixa aparece a BRT30, da Bruto Brasil, com 3.000 kg de capacidade de carga, classe da Caterpillar 926.
O emprego mostra onde a régua já apertou. O setor de máquinas e equipamentos ocupava 413,8 mil pessoas em julho, 11,1 mil a menos que doze meses antes.
Os números de agosto da produção industrial ainda não saíram. A ABIMAQ, por sua vez, publica balanço mensal com faturamento, emprego e uso da capacidade instalada.
Pela leitura da entidade, o custo do financiamento segue como o item que mais pesa na decisão de comprar. A trajetória dos juros é o que deve mexer com o pedido de máquina daqui em diante.