Sugestões? Clique aqui
Assine
Sobremáquinas

A indústria perde fôlego, mas o Brasil nunca teve tão pouco galpão vazio

Indústria e DistribuiçãoPublicado em 24 de jul. de 2026CompartilharTweetarPinterestWhatsApp
A indústria perde fôlego, mas o Brasil nunca teve tão pouco galpão vazio

A produção industrial hesita, mas o galpão vazio virou artigo raro

A produção industrial brasileira recuou 0,2% em maio, na comparação com abril, no primeiro resultado negativo de 2026 segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE. O tropeço não apaga o começo de ano: a indústria abriu janeiro com alta de 1,8%, a mais forte desde junho de 2024, e ainda guarda saldo positivo no acumulado. Para quem toca fábrica ou centro de distribuição, o recado vem em duas camadas. O chão de fábrica titubeia. O espaço para estocar e escoar produto, esse, está mais disputado do que nunca.

Nos últimos 12 meses a indústria varia apenas 0,4%. O parque fabril opera 3,3% acima do nível pré-pandemia, mas ainda 13,9% abaixo do recorde de maio de 2011, o que dá a medida de quanto o setor ainda tem para recuperar. É uma retomada de fôlego curto: avança um mês, para no outro.

Cinco por cento: a menor vacância que o mercado logístico já viu

Enquanto a fábrica desacelera, a estrutura que move a mercadoria acelerou. A taxa de vacância dos condomínios logísticos de alto padrão fechou o segundo trimestre em 5%, o menor nível da série histórica, segundo a Colliers. A absorção líquida somou 1,04 milhão de metros quadrados no trimestre, e nem os cerca de 628 mil metros quadrados de galpões entregues entre abril e junho deram conta da demanda. A área devolvida caiu ao menor patamar em sete anos: locatário não está saindo, está expandindo.

O preço acompanhou. O aluguel médio nacional ficou em R$ 30 por metro quadrado ao mês, estável pelo terceiro trimestre seguido, com São Paulo a R$ 33,7, o Distrito Federal a R$ 35 e o Ceará a R$ 34,6. O inventário nacional cresceu 8% em 12 meses e há perto de 2 milhões de metros quadrados em obras. Quem puxa a fila é o comércio eletrônico: as cinco maiores transações do primeiro semestre saíram de operadores digitais, e Mercado Livre e Shopee assinaram nove das dez maiores locações do trimestre. "Locatários estão mantendo e em muitos casos expandindo suas operações", resumiu Ricardo Betancourt, CEO da Colliers.

Fábrica mais cheia, empresário mais pessimista

O paradoxo se repete dentro da própria indústria. A Utilização da Capacidade Instalada subiu de 69% em maio para 70% em junho, com ganho de quatro pontos percentuais no primeiro semestre, sinal de que o que roda está rodando perto do limite. Só que a confiança foi na direção oposta. O Índice de Confiança do Empresário Industrial da CNI caiu para 44,4 pontos em julho, o menor patamar desde a pandemia e o 19º mês seguido de percepção negativa. Abaixo de 50, o índice indica falta de confiança.

Os freios têm nome: juro alto, peso dos impostos e custo de insumos e matérias-primas. A capacidade instalada está lá, ociosa em parte, esperando uma demanda que a fábrica não vê chegar com clareza. E é justamente essa hesitação que empurra a conta para a etapa seguinte da cadeia.

O gargalo mudou de endereço: foi parar dentro do CD

Se a produção patina, a movimentação não pode patinar. A receita do e-commerce saltou de R$ 89,96 bilhões em 2019 para R$ 204,27 bilhões em 2024 e deve passar de R$ 234 bilhões, transformando o desenho da cadeia e cobrando modernização de quem opera armazém. O jogo hoje se decide na intralogística: empilhadeiras de maior alcance vertical, precisão milimétrica e, cada vez mais, motor elétrico, categoria que já responde pela maior fatia das vendas de equipamento novo no país.

É aí que a frota própria vira decisão de capacidade, não de custo. Na movimentação interna, marcas como Toyota, Hyster e a brasileira BrutoBrasil, com a empilhadeira EBR-300, disputam o piso do armazém com os operadores. No pátio e na terraplenagem do galpão que ainda vai subir, entram as carregadeiras e escavadeiras de linha amarela. Quem tem o equipamento parado no próprio quintal não espera janela de locadora para carregar caminhão em pico de venda. E, com vacância a 5%, a diferença entre despachar hoje e despachar amanhã pesa no contrato.

O que vai decidir o segundo semestre

A tese do mercado é de manutenção. Com pipeline apertado e e-commerce comprando cada metro entregue, a vacância deve seguir no piso mesmo com novos galpões chegando. O risco está na fábrica: se a produção industrial voltar a crescer com força, a pressão sobre armazém, pátio e frota aumenta em vez de aliviar. O empresário que já dimensionou capacidade de estoque e de movimentação entra nesse cenário com folga. O que apostou que o espaço apareceria quando precisasse vai disputar 5% de galpão com Mercado Livre e Shopee.

Veja também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu comentário